A história é longa...mas certamente muito comum. Um dia eu acordei e eu era uma profissional competente, uma doutoranda dedicadissima, uma mãe apaixonada e uma eficiente adminstradora de casa e da família.
Nao é preciso dizer que nao tinha muito tempo pra mim...eu era a ultima prioridade da lista! A quarentena (que durou 2 anos) revirou a minha vida de cabeça pra baixo. Minha filha entrou na adolescencia, meu casamento que ja vinha em crise, despencou, meu doutorado que era uma das minhas 'diversões' havia acabado com a defesa bem sucedida da minha tese em junho de 2020...com o trabalho remoto confinada em casa, sem as minhas viagens de trabalho e nem mesmo as escapdas para a praia no fim de semana...me vi pela primeira vez na minha vida em depressao. UAU, era isso entao a depressao? Terrível, vontade de fazer nada...pra alguem que sempre fez tudo! Foi um processo que precisou de tempo para superar, mas como todo processo que joga a gente pra dentro, trouxe uma oportunidade de crescimento, amadurecimento e auto conhecimento sem precedentes em toda a minha vida até então.
Mas como Paris entra nisso tudo? Nao podiamos viajar...o Brasil estava na lista de países proibidos no mundo todo...e eu tinha acabado de ver a chamada pra uma conferencia na minha area de atuacao de trabalho e estudo, em Paris...sonhei com aquela oporutnidade. Era maio...e nem a vacina eu tinha tomado ainda. A conferencia seria no fim de Outubro. Comecei a organizar a minha vida como se a viagem para aquela conferencia fosse minha 'festa de debutante'....eu estava com férias acumulada e empresa reclamando que eu precisava sair (sair pra onde??? estavamos trancados!) e eu pensei...vou pegar uns dias de férias antes da conferencia e vou passar uns dias em Paris...eu, comigo mesma.
Viajar sozinha nao era novidade na minha vida, comecei fazendo meu intercambio ainda na epoca da faculdade, me jogando do outro lado do mundo numa epoca em que eu nem falava ingles o suficiente (mas a ignorancia da juventude vem sempre acoplada com aquela super dose de coragem!) e depois o trabalho veio me dando muita experiencia ao longo da vida, viajando pra diversos paises sozinha...mas enfim, Paris...fazia muitos anos que eu nao ia pra lá...nem esteve muito na minha lista de desejos durante muitos anos e a bem da verdade, a ultima experiencia lá nao havia sido das melhores (houve uma suspeita de bomba na torre e uns momentos de terror!)
Resumindo a historia - tomei a vacina, consegui aprovacao para participar da conferencia, o Brasil ganhou algumas permissoes, fiz meu teste de covid (sim...aquele estupro nasal!!) e embarquei...eu sentia como se pudesse respirar novamente. A liberdade de poder fazer o que eu quisesse.
Foram 20 dias em que eu cuidei de mim mesma apenas. Todas as minhas viagens anteriores sozinha sempre foram exclusivamente para o tempo exato do evento, reuniao, trabalho. Eu nunca havia tirado ferias sozinha...alias, todos os programas sempre eram familia, filhos, etc. Eu nao me sentia livre desta forma desde meus 20 e poucos anos...
Paris me abraçou sozinha. Foram muitos momentos emocionantes, em que eu pude me reencontrar. Antes da profissional, antes da mae, antes da academica, antes da adminstradora de casa...existia uma mulher, e eu tinha me esquecido dela.
Foi caminhando pelas ruas de Paris que eu me vi novamente como eu havia sido antes de me tornar tudo isso. Claro, muito grata pois foi exatamente todo o trajeto e tudo isso, que me permitiu estar ali naquele momento, aproveitando cada passo.
Mas, aquela sensacao se tornou algo impossivel de abrir mao...eu sai de Paris, depois da minha conferencia, chorando. Me lembro do sentimento de tristeza de como quem deixa alguem por quem esta apaixonado. E esse alguem na verdade, era o meu 'eu' redescoberto naquela cidade linda.Voltando para Sao Paulo, matei a saudade da filhota e fiquei digerindo aquela experiencia. Comecei a fazer alguns trabalhos academicos em parceria com uma universidade em Paris, a distancia. Comecei tambem a estudar frances...era um desafio enorme comecar do zero em algum assunto, e era isso tudo que minha vida precisava, novos desafios, novos planos, nova lista de desejos...
Com o apoio da minha familia, eu voltei para Paris em março e fiquei um mês estudando frances...depois voltei em junho, quando ia para uma confernecia em Bruxelas, e fiquei mais uma semana...depois voltei em agosto para mais um mes estudando...e ja tenho minha passagem programada para novembro, para mais uma conferencia, mais algumas semanas estudando em Paris.
Escrevo esse texto hoje, sentada no jardim de luxemburgo (meu cantinho preferido), me sentido a pessoa mais privilegiada e grata do mundo. Mas escrevo principalmente por que gostaria de dividir e inspirar outras mulheres a olharem para si mesmas - e em caso de dúvida sobre o real potencial da sua felicidade...talvez, por que nao...a criar um plano de resgate!
Percebi nas minhas interaçoes que muitas mulheres tem medo de viajar sozinhas, e outras nunca sairam do país nao sabem nem por onde começar...e as vezes pra começar pode bastar apenas isso...um texto, uma mensagem, uma inspiraçao! 💕
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